terça-feira, 16 de agosto de 2011


"Este livro nasceu de um texto de Jorge Luís Borges. Do riso que sacode, à sua leitura, todas as familiaridades do pensamento - do nosso; do que tem a nossa idade e a nossa geografia -, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a pululação dos seres, fazendo vacilar e inquietando por longo tempo a nossa prática milenária do Mesmo e do Outro. Este texto cita "uma certa enciclopédia chinesa" onde vem escrito que "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) et caetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas". No deslumbramento desta taxonomia, o que alcançamos imediatamente, o que, por meio do apólogo, nos é indicado como o encanto exótico de um outro pensamento é o limite do nosso: a pura impossibilidade de pensar isto."

"Que é, pois, que é impossível de pensar e de que impossibilidade se trata?"

"Borges não acrescenta nenhuma figura ao atlas do impossível. Borges retira a mais discreta, mas também a mais insistente das necessidades, subtrai o local, o solo mudo onde os seres se podem justapor". O que se retira é o lugar "onde, desde o fundo dos tempos, a linguagem se entrecruza com o espaço."

"Este texto de Borges fez-me rir durante muito tempo, não sem um verdadeiro mal-estar difícil de vencer. Talvez porque depois vinha a suspeita de que existe uma desordem pior do que a do incongruente e da aproximação do que não concorda entre si: a desordem que faz cintilar os fragmentos de um grande número de ordens possíveis na dimensão, sem lei nem geometria, do heteróclito: e importa entender esta palavra no sentido mais próximo da etimologia: as coisas apresentam-se nessa série "deitadas", "colocadas", "dispostas" em sítios a tal ponto diferentes que se torna impossível encontrar para elas um espaço acolhedor, definir, sob umas e outras, um lugar comum a todas." "As utopias consolam, porque (...) disseminam-se (...) num espaço maravilhoso e liso: abrem cidades de vastas avenidas, jardins bem cultivados, países fáceis; mesmo que o acesso a eles seja quimérico. As heteropias inquietam, sem dúvida, porque minam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque quebram os nomes comuns ou os emaranham, porque de antemão arruínam a "sintaxe", e não apenas a que constrói as frases mas também a que, embora menos manifesta, faz "manter em conuunto" (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. É por isso que as utopias permitem as fábulas e os discursos: elas situam-se na própria linha da linguagem, na dimensão fundamental da fábula: as heteropias (como as que se encontram tão frequentemente em Borges) dissecam o assunto, detêm as palavras sobre si mesmas, contestam, desde a sua raiz, toda a possibilidade de gramática: desfazem os mitos e tornam estéril o lirismo das frases."

 O texto de Borges aponta para a China cuja "escrita não reproduz em linhas horizontais o voo fugidio da voz, mas ergue em colunas a imagem imóvel e ainda reconhecível das próprias coisas".
 


Michel Foucault  - As palavras e as coisas

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