quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Não entendo
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector
Clarice Lispector
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
um silêncio gelado
menos que deserto:
o deserto privado de sol,
de ventos cortantes,
de movimentos de areia,
de animais estranhos, desertificados...
onde se instaura a violência
de um silêncio gelado.
e a mão que vai cortando
fremindo as arestas, as areias
e deixando ali, esculpidas e secas - as palavras...
queimando de sua solitária chama
aquecendo o mundo perdido
de uma luz efêmera
e amaldiçoada de não poder mais ser.
o que se pode dizer
- que violentaria o silêncio -
seria o que não se vive deveras?
seriam veios gastos de memória
de um exílio sem dor e sem castigo
na eterna solidão do ser?
o que se pode falar?
como não aprendi, apenas grito...
Ou antes que um grito
sou uma máquina-de-sofrer que grita
a metástase imprópria do grito
a anti-matéria do grito ou sua própria abolição
que se pode dizer? Senão esses sons obscuros
e que no entanto
me condiciona nesse animal que escreve
solitário e mudo, que caminha, caminha
e jamais sai do seu próprio lugar
autor: Marcelo Goñi Braga
Originalmente publicada na Dissertação de Mestrado Intitulada
¿ O que é Literatura? Escrita, Leitura e Produção de Pubjetividade (2002)
Assinar:
Postagens (Atom)