quinta-feira, 27 de dezembro de 2012



Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?

¿Por qué es tan triste madrugar? La hora
nos despoja de un don inconcebible,
tan íntimo que sólo es traducible
en un sopor que la vigilia dora

de sueños, que bien pueden ser reflejos
truncos de los tesoros de la sombra,
de un orbe intemporal que no se nombra

y que el día deforma en sus espejos.
¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?

Jorge Luis Borges
El sueño

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Não entendo

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.


Clarice Lispector

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

um silêncio gelado

menos que deserto:
o deserto privado de sol,
de ventos cortantes,
de movimentos de areia,
de animais estranhos, desertificados...
onde se instaura a violência
de um silêncio gelado.

e a mão que vai cortando
fremindo as arestas, as areias
e deixando ali, esculpidas e secas - as palavras...
queimando de sua solitária chama
aquecendo o mundo perdido
de uma luz efêmera
e amaldiçoada de não poder mais ser.

o que se pode dizer
 - que violentaria o silêncio -
seria o que não se vive deveras?
seriam veios gastos de memória
de um exílio sem dor e sem castigo
na eterna solidão do ser?
o que se pode falar?
como não aprendi, apenas grito...
Ou antes que um grito
sou uma máquina-de-sofrer que grita
a metástase imprópria do grito
a anti-matéria do grito ou sua própria abolição
que se pode dizer? Senão esses sons obscuros
e que no entanto
me condiciona nesse animal que escreve
solitário e mudo, que caminha, caminha
e jamais sai do seu próprio lugar

autor: Marcelo Goñi Braga
Originalmente publicada na Dissertação de Mestrado Intitulada
¿ O que é Literatura? Escrita, Leitura e Produção de Pubjetividade (2002)