menos que deserto:
o deserto privado de sol,
de ventos cortantes,
de movimentos de areia,
de animais estranhos, desertificados...
onde se instaura a violência
de um silêncio gelado.
e a mão que vai cortando
fremindo as arestas, as areias
e deixando ali, esculpidas e secas - as palavras...
queimando de sua solitária chama
aquecendo o mundo perdido
de uma luz efêmera
e amaldiçoada de não poder mais ser.
o que se pode dizer
- que violentaria o silêncio -
seria o que não se vive deveras?
seriam veios gastos de memória
de um exílio sem dor e sem castigo
na eterna solidão do ser?
o que se pode falar?
como não aprendi, apenas grito...
Ou antes que um grito
sou uma máquina-de-sofrer que grita
a metástase imprópria do grito
a anti-matéria do grito ou sua própria abolição
que se pode dizer? Senão esses sons obscuros
e que no entanto
me condiciona nesse animal que escreve
solitário e mudo, que caminha, caminha
e jamais sai do seu próprio lugar
autor: Marcelo Goñi Braga
Originalmente publicada na Dissertação de Mestrado Intitulada
¿ O que é Literatura? Escrita, Leitura e Produção de Pubjetividade (2002)
Nenhum comentário:
Postar um comentário